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16 de março de 2007

CARRO OU MOTO? TRICICLOS LÁ FORA E AQUI NO BRASIL





Texto: Gustavo Henrique Ruffo
Fotos: Divulgação e Automedia

Carro ou Moto?

O que diferencia um carro de uma moto? Só o número de rodas? O habitáculo, no carro, ou a ausência de um, na moto? Para muitos, a discussão a respeito disso pode parecer inócua, mas não é diante de novos modelos de triciclos que podem ser tanto carros que se comportam como motos ou motos que se comportam como carros.

Neste segundo time uma das próximas novidades será um modelo da Bombardier, empresa que, além de concorrer com a Embraer, também ataca na fabricação de motos de neve e jet-skis. Outra de suas especialidades é a fabricação de motores de moto, com a Rotax, que fornece para a BMW e para a Aprilia.

Chamado de Threewheeler (fotos 1), o novo veículo terá o mesmo motor que equipa a Aprilia RSV-R, um motor V2, com cilindros a 60º, de 1 litro e 130 cv. Segundo a Automedia, que fotografou o triciclo em testes, o novo veículo terá caixa CVT, com relações de marcha continuamente variáveis, mas o protótipo exibia caixa comum, com trocas no pé.

O objetivo da marca, ao oferecer o Threewheeler, é o de proporcionar a experiência de guiar uma moto, mas com a estabilidade e a segurança que um carro oferece. O triciclo tem até um controle especial de estabilidade, desenvolvido pela Bosch especialmente para ele, além de ABS.

Em alguns países, o veículo também poderá ser guiado sem a necessidade de licença especial para moto, bastando ao condutor ter habilitação para automóveis. O lançamento será em San Diego, nos EUA, no dia 7 de fevereiro de 2007, e as vendas devem ocorrer nos EUA e na Europa, com entregas ainda no primeiro semestre.

Apesar de interessante, a idéia para a criação deste triciclo não é nova. Ela já foi bastante antecipada pela Piaggio, por exemplo, que vende desde 2005, na Europa, o MP3 (fotos 2). Esse simpático scooter também traz duas rodas na dianteira, conceito diferente do que normalmente se vê em triciclos.

As vantagens com esse formato são significativas: além de maior estabilidade, o MP3 pára em pé sozinho e freia melhor (em espaços até 20% menores que os dos melhores scooters, segundo a Piaggio), já que o maior esforço de frenagem é sempre na dianteira de qualquer veículo.

Longe de tirar o prazer de conduzir o MP3, as duas rodas dianteiras “deitam” em curvas, acompanhando a inclinação do condutor, como se ele estivesse em um scooter comum. A vantagem é poder tombá-lo ainda mais em curvas do que seria possível com um modelo de apenas duas rodas. No MP3, um sistema especial de suspensão permite que as dianteiras se inclinem até 40º.

Com dois motores disponíveis, um de 250 cm³ e um de 125 cm³, o MP3 reserva mais surpresas, com um freio de estacionamento eletro-hidráulico que é controlado por um botão, o que elimina a necessidade de cavalete.

Carros que parecem motos

Sem habitáculo, os triciclos citados acima são exemplos típicos de motos com características de carros. Mas há também aqueles que dispõem de cabine e são carros com um gostinho de duas rodas.

Um dos exemplos mais antigos vem de um fabricante tradicional, a Mercedes-Benz, que em 1997 criou o F 300 Life-Jet (fotos 3). O Jet do nome se refere à cabine, em estilo aeronáutico, com dois lugares, um para o condutor e outro, atrás, para o passageiro, como em aviões-caça, mas não há mais nada neste veículo conceito que remeta aos parentes mais pesados que o ar. O objetivo do F 300 era parecer com uma motocicleta.

E a principal característica dele, para isso acontecer, era o ATC, ou Active Tilt Control, um controle ativo de inclinação da carroceria. Em curvas bem fechadas a alta velocidade, o sistema inclina a carroceria do F 300 para dentro da curva, aumentando ao máximo sua estabilidade e proporcionando uma experiência parecida com a de guiar uma motocicleta, com vantagens.

A aceleração lateral máxima que ele consegue é 0,9 g, algo que pouquíssimos motociclistas conseguem tirar de uma moto e que apenas alguns dos melhores carros esportivos conseguem superar.

Para empurrar o F 300 Life-Jet para a frente, a Mercedes-Benz colocou nele um motor de automóvel, o mesmo 1,6-litro que equipava o Classe A brasileiro, com pouco mais de 100 cv. Em um veículo leve como o F 300, ele fazia milagres: máxima de 211 km/h e 0 a 100 km/h em 7,7 s. Infelizmente, para muitos, esse veículo extraordinário ficou apenas no campo dos estudos.

Outro que ainda não chegou sequer a se materializar é o Peugeot Liion (fotos 4), um dos finalistas do 4º Concurso de Design da marca francesa. Criado por Cristian Sano, um jovem designer romeno de 27 anos, o carro também se inclinará em curvas, caso seja fabricado, e adota uma linha extremamente ecológica.

Para começar, o nome Liion não remete apenas a um leão, em inglês, animal que é símbolo da Peugeot, mas também ao sistema de propulsão do triciclo: elétrico, com baterias de lítio íon. O motor elétrico não está dentro da cabine, mas alojado dentro da roda traseira, como tudo aponta que serão os carros do futuro.

Como o Liion ainda está concorrendo ao prêmio, não há garantias para sua produção em série, o que não acontece com o Carver One (fotos 5), um triciclo holandês que já é fabricado e vendido, com capacidade para o motorista e um passageiro, que também viaja atrás, como no F 300 Life-Jet.

Diferentemente dos outros veículos apresentados aqui, o Carver segue a receita tradicional para os triciclos, com duas rodas atrás e uma na dianteira, em vez de duas na frente e uma atrás. Isso deve se dever ao privilégio que é dado à tração e ao desempenho.

O motor, diga-se, é pequeno: tem apenas 659 cm³, o que o aproxima ainda mais das motocicletas. Com quatro cilindros, quatro válvulas por cilindro e turbo, ele chega a 68 cv a 6.000 rpm. Não é muito mais do que um carro com motor 1-litro consegue (chega a ser menos), mas, para os 643 kg do Carver One, é o suficiente para levá-lo à máxima de 185 km/h e de 0 a 100 km/h em 8,2 s.

Não se pode dizer que sejam números de encher os olhos, mas o fato de o Carver se inclinar até 45º em curvas faz com que ele pareça uma moto superesportiva, com a vantagem de ter cinto de segurança e, por incrível que pareça, volante.

Com meros 3,40 m de comprimento (22 cm menor do que um Ford Ka), o Carver One se oferece como uma boa solução para o trânsito urbano, com um toque de emoção e esportividade. Pena é que o preço ainda é alto, mesmo para os padrões europeus.

O Carver One mais simples custa 29,95 mil euros, cerca de R$ 84,5 mil. O mais sofisticado sai por 37.955 euros, ou pouco mais de R$ 107 mil. Ar-condicionado não está disponível em nenhuma das versões, mas o teto é removível, o que pode dar a quem gosta de motos um gosto próximo de liberdade.

Com o tempo, os veículos devem se tornar cada vez menores, mais leves e racionais. Carros com capacidade para apenas duas pessoas, ou uma só, serão rotina, maximizando o espaço nas ruas e o consumo de combustível, sem a necessidade de quatro ou cinco lugares que raramente são utilizados.

Como as motos são consideradas extremamente racionais, mas ainda despertam receio em muita gente, e os carros convencionais podem parecer um exagero para quem quer apenas chegar no serviço, um dos caminhos para conciliar o que cada universo oferece de melhor pode estar nos triciclos. Independentemente do papel que exercerão no transporte do futuro, eles já estão chegando.

Brasil também terá triciclos



Texto: Gustavo Henrique Ruffo
Fotos: Divulgação


Carro ou Moto II: Brasil também terá triciclos fechados.

Empreendedores brasileiros tentam viabilizar fabricação de veículo econômico e ao alcance de todos.

(07-02-07)
- A reportagem “Carro ou Moto?” (leia-a
aqui) teve uma repercussão muito positiva, com comentários os mais diversos. Interessante é que a maioria lamentava que alguns dos produtos mostrados ali estavam disponíveis apenas nos mercados americano e europeu. Uma minoria, porém, procurou o WebMotors para contar que há, sim, triciclos em desenvolvimento no Brasil, alguns deles inclusive a poucos passos de um lançamento comercial. De certo modo, portanto, alguns leitores atenderam o anseio de muitos.

O primeiro a procurar o site foi Carlos Eduardo Momblanch da Motta, engenheiro mecânico e empresário que se associou a Renato César Pompeu, também engenheiro mecânico e economista, para, com a ajuda da Kommdesign, criar o Pompéo, um triciclo que, a exemplo do que dissemos na reportagem citada acima, tem o jeitão dos carros, apesar de sua identidade com as motos.

Para começar, o Pompéo tem carroceria fechada, com portas, assim como volante, painel (digital), câmbio por alavanca, freio de mão e dois bancos individuais. Cada banco tem seus cintos de segurança e há espaço na dianteira para um estepe. Isso, segundo a resolução nº 129, do Contran, permite que os futuros condutores deste triciclo não precisem usar capacete.

Por outro lado, apesar de ser muito parecido com um carro, o Pompéo precisaria ser conduzido por motoristas com carteira do tipo A, para motos. Triciclos, segundo o parágrafo 6º do artigo 115 do CTB, são licenciados como se fossem motocicletas, sem a necessidade de utilizar placas dianteiras.

Isso pode ser uma vantagem competitiva enorme para o Pompéo, especialmente em São Paulo, com seu rodízio de carros municipal. Na capital paulista, as motos estão dispensadas da proibição de circulação. Teoricamente, portanto, o Pompéo também estaria.

Tudo, evidentemente, vai depender de como o triciclo será homologado. Se sua homologação permitir que ele seja conduzido por quem tem carteira B, para carros de passeio, pode ser que ele também fique sujeito ao rodízio municipal, mas a empresa pretende negociar com as autoridades para que seu veículo seja considerado como uma exceção, neste caso. Até porque, tecnicamente falando, o Pompéo tem tudo para ser beneficiado.

Basta perceber que, com apenas dois lugares e um peso máximo de cerca de 500 kg, com 2,33 m de comprimento (um Ford Ka mede 3,62 m), o Pompéo ocuparia pouquíssimo espaço no trânsito urbano, mesmo conceito que tornou o Aruanda, projetado pelo professor Ari Antônio da Rocha, um carro tão revolucionário (leia mais sobre ele aqui). Com isso, ele atenderia ao primeiro dos requisitos do rodízio: desafogar o trânsito pesado da metrópole, tirando de circulação carros para cinco ou sete passageiros que, frequentemente, transportam apenas um.

O segundo requisito do rodízio, o de diminuir a poluição na cidade, também seria atendido pelo Pompéo. As opções de motorização do novo veículo estão entre os motores de 250 cm³ da Yamaha YS Fazer 250 (leia aqui a avaliação desta moto) e o da Honda CBX 250 Twister (leia a avaliação deste modelo aqui), isso para a versão de entrada do Pompéo, que deve custar cerca de R$ 15 mil.

Se isso parece um preço alto por um veículo de dois lugares, a média de valor cobrada por um smart fortwo, importado de modo independente para o Brasil, é de cerca de R$ 150 mil, dez vezes mais do que o Pompéo poderia custar. E basicamente com a mesma finalidade.

Como o Pompéo seria flexível com três combustíveis (gás natural, álcool e gasolina), o mais provável é que a escolha recaia sobre o motor da Yamaha Fazer, que conta com injeção eletrônica.

Uma versão mais sofisticada do triciclo, com o motor de 400 cm³ da Honda NX Falcon, poderia ter itens de conforto como vidros elétricos e ar-condicionado, item praticamente imprescindível atualmente.

As peças de suspensão também seriam herdadas de motos, o que facilitaria bastante a fabricação do triciclo. O projeto do Pompéo está tão adiantado que a fabricação da carroceria já está em estudo com uma empresa do sul do país. Ela não seria de plástico reforçada com fibra de vidro, como normalmente são os carros especiais, mas sim de plástico injetado. Pompeu e Motta ainda procuram por sócios, mas a criação da empresa por conta própria é uma opção que eles não excluem.

Projeto Triciclo

O segundo leitor a nos procurar foi Gulherme Barbosa de Oliveira, 26, que elaborou em 2002 o Projeto Triciclo. Como ainda é um projeto, e dos mais simples de fabricar, ele também poderia gozar da mesma vantagem do Pompéo, ou seja, a de poder ser conduzido sem capacete, mas para isso ele precisaria incluir, em algum ponto, o estepe, o que um ajuste de projeto poderia contemplar facilmente.

Ainda assim, o Projeto Triciclo estaria muito mais próximo de uma moto do que o Pompéo. Para começar, sua cabine não tem portas: as laterais são abertas e dão acesso ao único banco de que ele dispõe.

Em segundo lugar, o Projeto Triciclo não tem volante, mas sim um guidão. E isso seria de menos não fosse um detalhe bastante interessante: a suspensão dianteira do projeto permite que ele se incline até 15º para dentro das curvas que fizer, aumentando sua estabilidade e, também, a sensação de estar em uma moto.

A motorização do Projeto Triciclo é mais do que simples: chega a ser básica, uma vez que recorre ao 125 cm³ da Honda CG ou até ao 100 cm³ da Honda Pop, mas, pelo peso que ele pode ter, esse segundo motor soa menos adequado. O mais certo é que ele recebesse o 125 cm³ ou até o 150 cm³, uma vez que esse motor é conhecido por sua facilidade de manutenção e sua durabilidade.

Assim como nas motos, o motor do triciclo vai sob o banco do motorista, em posição central e baixa, colocando o centro de gravidade em uma posição ideal para a condução com maior estabilidade. Para cargas, o triciclo contaria com bauletos em sua parte traseira, além de um porta-luvas com chave e de porta-objetos.

O que é realmente interessante no Projeto Triciclo é a utilização de peças conhecidas no mercado, baratas e de fácil acesso, o que permitiria sua fabricação quase imediata, além de um preço bastante acessível ao consumidor, possivelmente abaixo de R$ 10 mil. Houve um interessado nisso, Hudson Roberto Ayres, mas ele faleceu em 2003.

Quem sabe Motta, Pompeu e Oliveira não encontram, também por meio do WebMotors, alguém que ajude a viabilizar a produção de seus veículos? Esse poderia ser o começo de uma indústria automotiva de origem brasileira, para a qual já houve tantas tentativas frustradas.


(Fonte: Site WEBMOTORS )

Alberto Macário
AFCET-SP